O fim da loja social: Casas Bahia deixa saudade em consumidores de Salvador

A varejista reduziu sua rede de lojas físicas em Salvador, que hoje soma quatro unidades. Consumidores que dependiam do crediário lamentam a mudança.

O fim da loja social: Casas Bahia deixa saudade em consumidores de Salvador
Foto: Sora Maia

A saudosa banda Mamonas Assassinas dava o tom da relação quase afetiva entre loja e cliente: “a minha felicidade é um crediário nas Casas Bahia”. Não era apenas um trecho da música Chopis Centis, mas uma constatação. E podemos provar. Em meio ao turbilhão de notícias sobre o fechamento de quase 300 lojas em todo o país, Vânia Oliveira foi pega de surpresa ao chegar à unidade da Pituba e vê-la fechada. Ela portava três carnês da varejista, fruto da compra de uma TV, uma furadeira para o marido e um celular, divididos no crediário a perder de vista. “E agora, moço? Como pago os carnês e onde vou comprar minhas coisas?”, indagou Vânia, como se tivesse perdido um amigo. “Eu não compro nada online, só comprava aqui”, completa.

Vânia estava aflita por dois motivos. “Me falaram que, agora que fechou, não precisava mais pagar o carnê, mas não quero meu nome sujo. Agora também não sei como vou comprar o celular do meu marido. Era bom porque a gente tinha aquele crediário. Você chegava, escolhia o que queria e parcelava. Eu sempre comprei e paguei direitinho. Para mim, vai fazer falta”, conta.

Vânia, assim como outros consumidores na mesma situação, pode pagar em lotéricas ou até mesmo em lojas das Casas Bahia ainda abertas, na Calçada, Itapuã, Pau da Lima e Cajazeiras. Para ela, o diferencial das Casas Bahia, além da aproximação entre vendedor e cliente, era seu poder de compra. Ela teve um cartão clonado, e o Bradesco acabou cancelando todos os cartões de crédito. O único lugar em que poderia fazer suas compras era pelo crediário da loja. “Quando cheguei lá e vi que estava fechando, fiquei surpresa. Meu marido já tinha me dito: ‘Olha, a Casas Bahia está fechando’. Só que eu achei que era mentira, achei que ele estava me trolando. Aí pensei: ‘Meu Deus, e agora, o que é que eu faço?’”

Aos 48 anos, Vânia é uma das pessoas que ainda não se acostumou com a tendência do mercado: a migração das lojas físicas para o ambiente online. Ela se recusa a comprar eletrodomésticos pela internet. “Quero ver, pegar, perguntar ao vendedor. A loja online é fria. Eu compro uma coisa ou outra, de baixo valor, mas não tenho coragem de comprar um celular, por exemplo. Eu tinha confiança nos vendedores, que tiravam minhas dúvidas. E agora?”, completa.

Essa relação é uma via de mão dupla. Quando a Casas Bahia anunciou demissões em massa, um vídeo do vendedor Edson Silva mostrou a dor não apenas pela demissão, mas também pela perda de uma loja que fez parte da história do varejo no país. Em poucas horas, diversas publicações de funcionários surpresos com as demissões sumárias viralizaram nas redes sociais. “Hoje o coração tá partido mesmo, mas com sentimento de dever cumprido. Foi daqui que eu tirei meu sustento, foi daqui que eu criei meus filhos, foi daqui que eu formei minha família”, contou.

Aqui em Salvador, um funcionário da loja do Shopping da Bahia lamentou o ocorrido: “A Casas Bahia fechou a porta e demitiu todo mundo. Vida que segue. Acabamos de receber a notícia de que fomos demitidos, o comunicado para todos. Foram 14 anos aqui, mas é vida que segue. Emprego não é casa de ninguém”, disse, em vídeo.

Moysés Suzart
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História

Apesar de a Casas Bahia ter sido fundada ainda na década de 1950, sua relação com o estado da Bahia é recente. A empresa foi fundada pelo polonês Samuel Klein, e o termo “Bahia” fazia referência ao fato de retirantes baianos estarem entre seus clientes mais assíduos. Contudo, o varejista só chegou ao Nordeste em 2009, com pompa de grande atração. Coincidência ou não, sua inauguração foi justamente no aniversário de Salvador, junto com outra abertura: a do Shopping Paralela.

Salvador parou. Além de um centro comercial de grande porte na Avenida Paralela, finalmente a Casas Bahia estava chegando à capital. Na época, Salvador abrigava outras varejistas, como Insinuante, Ricardo Eletro, Ponto Frio, entre outras. No novo shopping, matérias do CORREIO mostravam uma guerra pelo cliente, com promoções das outras lojas na tentativa de diminuir a concorrência com a Casas Bahia, que inaugurou quatro lojas simultaneamente: Pau da Lima, Shopping Paralela, Piedade e Calçada. A capital estava tomada por lojas, e a concorrência era tudo o que o cliente queria.

Tudo mudou. Quase 17 anos depois, o cenário é bem diferente. Fomos até o Shopping Paralela ver como está a situação em comparação com 2009. Naquele ano, cerca de cinco lojas de varejo dividiam a clientela. Atualmente, não há mais nenhuma. A Casas Bahia era a última. Curiosamente, a loja, apesar de fechada, continuava chamando atenção, pois seus eletrônicos, principalmente TVs, estavam ligados na parte interna e na vitrine, como um aviso mórbido da famosa frase “tem, mas acabou”.

Encontramos três funcionários do lado de dentro, mas ninguém quis falar. “Estamos apenas fazendo a vistoria dos produtos, mas não podemos falar mais nada sobre o assunto”, disse um dos colaboradores. João Souza até tentou comprar algo. “Vim dar uma olhada numa TV. A vitrine toda ligada, achei que estava aberta. Pior que não tem nenhuma loja física que venda eletrodomésticos no shopping. Eles nos empurram para o online, é fogo. Eu quero ver o produto, poxa”, disse.

Será o fim da relação entre consumidor, produto e vendedor? A expansão das compras pela internet não significa que o consumidor tenha abandonado as lojas físicas. Uma pesquisa da CX Trends 2026 mostra justamente a preferência híbrida do consumidor brasileiro: 85% dos consumidores compram pela internet, enquanto 78% também continuam comprando em lojas físicas. O comportamento é cada vez mais dividido: o cliente pode pesquisar um produto no celular, ir à loja conferir de perto, comparar preços e depois finalizar a compra pela internet.

Para o consumidor, portanto, a divisão entre online e físico praticamente não existe. O que importa é encontrar o caminho mais conveniente para cada compra. É justamente aí que o fechamento de lojas pode criar um problema, especialmente para quem ainda valoriza a experiência presencial. Contudo, mesmo com essa preferência híbrida, o varejo físico enfrenta dificuldades para se sustentar diante da comodidade e das vantagens do online, sem contar o crescimento contínuo das lojas virtuais. Só para se ter uma ideia, a Magazine Luiza acabou de fazer uma parceria com a Amazon justamente para vender seus produtos na plataforma de e-commerce.

“A migração para as lojas online, a exemplo dos grandes marketplaces (Amazon, Mercado Livre, Shopee), é um fator de concorrência para as lojas físicas, como as Casas Bahia, pois os preços são mais baixos, já que os custos são mais baixos, e tem a comodidade da entrega no conforto de casa. Ou seja, o brasileiro está migrando suas compras que realizava nas lojas pelas condições oferecidas pelas lojas online”, conta Juliana Guedes, economista e doutora em Economia pela Ufba.

Juliana também lembra que, pelo fato de mais pessoas estarem preferindo comprar virtualmente, não há necessidade, ou melhor, fica mais caro para as varejistas sustentarem lojas físicas, principalmente em shoppings.

“Uma redução do fluxo de pessoas/consumidores nas ruas e shoppings, principalmente de lojas âncoras, tende a provocar a queda nas vendas do comércio próximo, gerando a desvalorização imobiliária com o aumento de imóveis vagos. Para o consumidor, há o ganho de comodidade online, mas a perda de opções de crédito direto e atendimento presencial”, conta. O efeito acaba sendo em cascata.

“Há também a perda de emprego dos funcionários das lojas físicas e consequente redução da renda. A tendência tem apontado para a transformação interligada com o comércio online e não para o fim das lojas físicas. O ponto de equilíbrio atual baseia-se no omnichannel, onde unidades menores funcionam como espécies de showrooms, pontos de retirada e mini-hubs logísticos que reduzem o custo no trecho final de entrega, que vai do centro de distribuição até a casa do cliente”, completa Juliana, também professora do curso de Ciências Econômicas da Unijorge. Omnichannel é a integração total de canais entre lojas físicas, sites e redes sociais.

Percorremos algumas lojas das Casas Bahia que permanecem abertas em Salvador. Para um funcionário, que pediu anonimato, essas unidades só permanecem funcionando pelo baixo custo. “Ou o aluguel é baixo, ou o imóvel pertence à empresa. Mesmo assim, só aqui nesta unidade, mais de 10 funcionários saíram. Sinceramente, muita gente aqui já está procurando outros empregos. O problema é que praticamente não temos mais varejistas em Salvador”, conta.

Enquanto o funcionário falava, dona Ana Bárbara saiu feliz da vida com sua TV novinha. “Tem um mês que procuro nas lojas este aparelho. Pesquisava preços, olhava, pedia para ver ela ligando, o vendedor me ensinava a mexer. Agora me diga se na internet tenho um atendimento desse? Isso sem contar que podem extraviar minha mercadoria. Já vi gente que chegou foi um tijolo no lugar do celular. Aqui minha TV está debaixo do braço, é chegar em casa e ligar. E, se tiver algum problema, volto aqui”, conta.

A história das Casas Bahia, contudo, ainda está longe de terminar. Depois do fechamento de 298 lojas e de cerca de 1.900 demissões, a Justiça determinou nesta semana o restabelecimento provisório dos contratos dos trabalhadores desligados entre 13 e 17 de agosto, além da retomada de seus benefícios. A empresa, que pediu recuperação judicial para renegociar uma dívida de R$ 17,3 bilhões, agora tenta reorganizar a casa e manter de pé o que restou da operação.

Em Salvador, entretanto, a transformação já deixou marcas. De 2009 para cá, a cidade passou de uma espécie de paraíso das grandes varejistas a um cenário em que apenas quatro lojas da rede continuam abertas. Para Vânia, Ana Bárbara e tantos outros consumidores, a discussão nunca foi apenas sobre comprar uma televisão ou um celular. Era sobre entrar na loja, conversar, perguntar, tocar no produto e sair com o carnê na mão. A internet pode até ter levado a compra para dentro de casa. O que ela ainda não conseguiu levar foi a sensação de que, se alguma coisa der errado, tem alguém do outro lado do balcão.

Texto: Moyses Suzart, CORREIO